29 abril, 2011

Além linha

Acabara o vinho. Era a minha vez de cruzar a linha para trazer uma garrafa. Antes de sair, ouvi as orientações de praxe para um retorno seguro, concentrar-me na volta, pegar o vinho e tratar do regresso. Ninguém na praia. Ofuscado pela claridade na areia refletida, avanço para as vielas do povoado. Se tivesse sorte, não seria notado. As ruas são muito limpas e das pequeninas janelas nas fachadas das casas pendem florezinhas vermelhas e brancas. Nas calçadas alinham-se enormes barris de madeira e pelas entreaberturas de portas e janelas avisto as garrafas do maravilhoso vinho.
Não tenho critérios para escolher a casa da qual subtrairei a garrafa – o Além Linha muda a cada vez que a linha é cruzada: nunca ninguém contou que o Take Five toca incessantemente por aqui. Não me espanta que eles gostem de boa música, já sabia que os anisos têm apreço pelo belo – ouvira falar dos detalhes arquitetônicos, dos ajardinamentos, da limpidez deste céu. Paro à soleira da casa branca e, passo dentro, dispara uma sirene aguda e intermitente. Ruídos do tráfego de carros. Ambulância, deitado? Meu irmão em olhos d’água e cuidado.
Lxndre trazia duas garrafas de vinho. Colocou-as entre nós e iniciamos o jogo: flexionar as pernas, pegar uma garrafa, um rodopio, devolvê-las ao chão em posição trocada, rodopio e meio, agachar e flexionar apenas uma perna, empunhar a garrafa e girá-la no ar, e estender as mãos, rodopio, trocar a posição das garrafas, dois rodopios. Quase uma dança, fluíamos como o piano do Brubeck. O sorriso permanente do elegante aniso no comando da quase dança não chegava contrastar às minhas preocupações daquele momento: também eu estava envolvido no prazer da repetição insequenciada daqueles movimentos.
Time out: havia um ajuntamento de anisos já. Dei-me conta que já não seria possível sair facilmente do Além Linha. Os anisos trajam-se da mesma forma: um fato escuro de tafetá com estrias no sobretom, chapéu coco e faces pesadamente maquiadas em branco. Para distingui-los, atento-me a detalhes, como a posição da linha verde que desenham na face: na borda externa do lábio inferior, sobre uma, outra ou as duas sobrancelhas, no contorno do mento. Também há diferenças no viço do tecido ou no caimento de seus fatos. O fato de Lxndre é impecável!
Respirávamos juntos. Não havia notado que aqui a respiração decorre da vontade do ar em entrar nos pulmões, compelindo a uma sincronia no inspiraexpira, evidente pelos movimentos torácicos e o ruído do vento insuflando nossos alvéolos pulmonares. Curioso que essa a consciência da respiração forçada às vezes é acompanhada por um bipe rítmico (pi, pi, pi, pi), de coisa que se repete indefinidamente, como um relógio. Às vezes umas vozes acompanham o pi-pi-pi-pi, nem sempre consigo compreender as palavras. Entendi nitidamente a expressão pressão intracraniana! Também pude ouvir a voz da minha mãe, meu filho, você é forte. Sim, concentrar-me na volta, pegar o vinho e tratar do regresso.
Noite alta. Não sei se os anisos se revezam – uns acordados, outros no gozo do sono. No Além Linha não durmo, há sempre um aniso desperto para as brincadeiras, para as danças e os recitais de piano. Alucinações, não sei quantas são as noites não dormidas: em plena assembleia para decidir se eu seria incorporado ao povoado, tive essa visão assustadora: eu num leito, fluorescência em luz fria, tubo e sondas. E o pi-pi-pi-pi de novo, e as lufadas de vento canalizado pulmão adentro. Mas a visão esvaneceu-se quando começaram as vozes dos tambores. Tragam as minhas as vestes! Tragam as minhas vestes que preciso me apresentar!


*

Admiro o azul do céu através da janela, dia lindo – meu último dia. Gostaria de um pouco de silêncio, mas aqui o permanente ruído do transito é permeado, à noite, pelos rugidos da falsa alegria dos travestis. Nenhuma lembrança de como cheguei, nem das circunstâncias que me trouxeram a essa situação. Soube que meu irmão estava no resgate e que, inconsciente, em todos os horários de visitas tive companhia. Vão me levando corredores afora e, por fim, abre-se em silêncio uma enorme porta de vidro. No vestíbulo o cortejo das pessoas que me são mais caras está formado. À saída, cumprimento um homem – rosto muito branco, terno escuro e chapéu – ele é desigual de quem conheço. Pela vidraça do carro miro a fachada ocre do edifício onde estive confinado – três dias, três meses? Esse tempo transcorrido no hospital é como a memória de um cheiro da infância, às vezes consciência plena, no geral sensação remota. O carro para ao sinal vermelho na Avenida Afonso Vergueiro, Sorocaba! Numa placa verde, letras e setas brancas: Além Linha, Retorno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário