20 janeiro, 2011

Doze anos

Há dias que penso em escrever sobre o que começo a escrever agora. Não sabia por onde começar – e isso é quase uma mentira, porque algum incauto pode presumir que agora tenho domínio absoluto das palavras que vou digitando aqui. É verdade que não sabia, continuo sem saber. Não sei nem se devo simplesmente relatar a situação vivenciada ou talvez devesse optar por um ensaio. Quiçá poderia escrever uma mensagem curta e bem exclamativa que enviaria por emeio: um menino de 12 anos! Muitas vezes liguei o computador e, em vez de escrever logo e me livrar dessa sensação desagradável – porque escrevo sobre o que me sensibiliza e é uma forma de aliviar esse nó na garganta – jogava paciência ou escrevia a um amigo distante sobre as amenidades – ou desventuras – do cotidiano. Tergiverso. Um parágrafo inteiro e ainda não toquei no assunto em si, exceto pela menção rápida do personagem. Um personagem, narrativa, então.
Penso nos meninos de doze anos na época em que eu tinha essa idade, cerca de vinte e cinco anos atrás. Morava num bairro no Além Linha em Sorocaba. Muitos dos meninos do bairro eram filhos dos operários da FEPASA, resquício da Sorocabana que trasladara tanta gente fina até a Estação Júlio Prestes. A ferrovia agora decadente, no agora daquela época, servia apenas para carregamento de carga. As expectativas dos pais sobre os meninos eram que eles os perpetuariam: seriam operários e pais de família. Quando tocava o primeiro apito da FEPASA, acordávamos todos para as rotinas matutinas – lavar o rosto, café com leite, pão com margarina. No terceiro apito, mais longo que os demais, pais já na oficina e meninos a caminho da escola.
O menino sobre quem pretendo escrever tem doze anos hoje, poderia ser filho de um daqueles meninos, poderia ser neto de um dos mecânicos da ferrovia. E não sei que força invisível é essa que me impede de escrever sobre o menino mesmo, fico às voltas com minhas reminiscências – o gosto do pão amanhecido, o apito estridente, a bruma espessa dissipando-se. Nada há de extraordinário no enredo do menino mesmo, é matéria bem conhecida e debatida. E há qualquer coisa em comum na história do menino e dos meninos – querer a menina, apertá-la contra a parede, beijar sua boca. Por exemplo.
Sou bem sucedida para quem foi uma menina dessas (não me refiro ao deixar-me beijar) – tornei-me operária de nível superior no sistema de saúde. Assim conheci o menino mesmo: sua queixa era que a gengiva lhe doía horrores e sangrava muito. A boca do menino exalava a carniça, gengiva necrosada. Imagino um diálogo entre os parentes do menino: Você tem notícia do Kauã? Ah, só problema. De novo? É, desandou a TV nova da tia na boca, tava devendo umas pedras que pegou para passar e acabou fumando. Coitada da tia, cara, até onde vai isso? Até ele ser matado.

2 comentários:

  1. Punk, Claudinha, punk mesmo! São as gengivas necrosadas que nos mantêm a gente(aqueles que têm alma) preso à "infantaria" do serviço público. Choramos, reclamamos, chiamos, queremos sair, mas... há muitas gengivas necrosadas a tratar, muitos meninos pré-mortos a des-matar.

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  2. Claudinha, me (en)canto(u) a narrativa num canto do quarto e (in)quieta pus-me a coçar a boca muda de explicações.
    Beijos da Val

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