21 fevereiro, 2010

A CENTAURA

dmitry v.narzhny
A FUGA AO ESTEREOTIPO DO CENTAURO

Criar para si a liberdade de novas

criações talvez seja um exercício

necessário e uma luta diária.


Ps. Existem infinitas interpretações?

18 fevereiro, 2010

Conversa de Boteco

Todo povoado que se preze tem ao menos um boteco e uma igreja. Quando é distante da cidade, o boteco é também a venda, o que facilita aos casados saírem de casa e se reunirem em torno da cachaça: Mulher, vou buscar uma linguiça na venda.
Há uma razão para encetar o relato com esse preâmbulo – poderia começar logo na narrativa. Ocorre que certas histórias só são possíveis em determinadas condições e são menos importantes os dados demográficos que os costumes e a mentalidade do povo. Poderia perguntar ao IBGE quantos são os habitantes da Serra do Itapety, se são velhos ou moços, se trabalham com carteira assinada ou se possuem bens imóveis.
Prefiro, no entanto, para dar uma noção de quantos somos, contar que num raio de cinco quilômetros do meu sítio há três vendas e duas igrejas; temos também uma escola com umas cem crianças matriculadas. É uma pena não haver um posto de saúde, gostaria muito que essa faculdade da ubiquidade dos botecos e das igrejas fosse estendida aos postos de saúde. Para isso, reivindicar uma UBS às autoridades de Mogi das Cruzes, lançamos mão dos números do IBGE, cada coisa tem a sua hora.
Tergiverso. Isso, da necessidade de um posto de saúde nesses confins, não guarda relação com a história. Contudo, a tergiversação em si é parte da história: é o nosso modo de falar. Contentamento: mudei-me para cá há menos de seis meses e já me identifico como um dos da terra.
Sem mais rodeios.
Fim da tarde. Encilhei meu cavalo e fui à venda comprar farinha. Ordenei uma branquinha para me refrescar e tomei assento para um dedo de prosa. O assunto era a obra na fazenda da japonesa – ela havia vendido as terras para uma fábrica de papel e era aquele barulho dos infernos, mais de vintes tratores na função de terraplenagem. O estrago foi muito grande. O fio d’água que alimentava o lago da dona Carmem secou e o lago virou uma poça de lama; a estrada para o Caracol estava intransitável – nem a cavalo – e as crianças de lá estavam perdendo aulas; a paisagem enfeou muito, no lugar do extenso roçado de hortaliças em curvas de nível havia agora aquele campo de terra nua e plana.
E apareceu uma onça nas cercanias. Diz-se que ela morava naquela matinha que foi derrubada pela fábrica de papel. Como ficou sem casa e sem ter onde caçar, passou a atacar os galinheiros e a dar sustos nas gentes. O Gomes mesmo, numa noite dessas saiu de moto do bar do Simei – garante que estava sóbrio – e não teve como evitar a queda na curva da gruta, quando a onça pulou no meio da estrada.
Depois dessa, tive de contar o comigo sucedido:
Estava a sós em casa e no meio da noite ouvi o ladrar inquieto dos meus cães. Pensei que fosse gente, ladrão. Sem acender as luzes, sem fazer barulho, peguei um facão e saí para o terreiro. No escuro tentava enxergar o que estava se mexendo entre as ameixeiras, parecia gente acostumada com matos: eu sentia que algo se movia e sabia que era grande como um homem, apesar de não ouvir o ruído das passadas. Minhas pupilas estavam dilatadas ao máximo e eu mal respirava para não denunciar a minha presença no terreiro. E no meu peito, o coração: buco-buco, buco-buco.
De repente, pulou a onça na minha frente. Tinha aquele bodum próprio das onças e aqueles olhos que hipnotizam a presa. No caso, a caça era eu; melhor, a caça era ela ou eu. Ficamos nos medindo num tempo sem fim, não nos movíamos, nem a piscar. Eu segurava aquele facão inútil e imaginava como me defenderia da bichana, até podia conceber a lâmina sangrando-lhe o pescoço, era questão de conseguir enfiar a faca nela, de ser mais veloz que a onça. Não atacamos.
Começou um movimento de nuvens no céu e a lua cheia iluminou o mundo. Minha sombra cresceu sobre a onça e eu já não sabia o que era a onça e o que era a minha sombra. Penso que ela se assustou muito com o meu vulto, pois que no mato sumiu tão ligeira quanto dele surgiu.
Terminei a história, virei a cachaça e montei o meu cavalo. Por muitas semanas qualquer assunto no bar do Simei rematará novas histórias da onça. Quero ver quem vai ter história melhor que a minha.

10 fevereiro, 2010

Le Physique du Rôle

Agora é isso: a Dilma não tem o physique du rôle de um líder político. O que lhe falta? A cada eleição vemos os políticos explorarem os preconceitos disseminados na nossa sociedade. Contra o Lula usaram o preconceito de classe: era inaceitável a origem social dele, era imperdoável a sua fala ‘incorreta’, era inadmissível que não soubesse outras línguas – faltava-lhe ‘esprit du rôle’. Como da Dilma não se pode dizer essas coisas, apelam ao machismo latente no brasileiro. Além de ser mulher, a Dilma não é loira, alta, linda, divertida, sedutora, simpática.

E o candidato deles? Em relação à aparência, o Serra está muito longe de ser o homem vitruviano, na verdade ele lembra mais o Nosferatu, daquele antigo filme alemão. Mas realmente a feiúra e a antipatia dele não são importantes. O que importa é a sua visão política: privatização dos serviços e investimentos nas áreas sociais reduzidos ao mínimo possível. Se o Serra tem o tal physique du rôle, não vai dar ao Brasil a direção que queremos.

02 fevereiro, 2010

Tristeza? Banho de rio

"...era um rio quase estagnado de tão lamacento, quando se deslocava dava a impressão de arrastar consigo as margens imundas. Era um rio podre, contudo eu ainda via alguma graça ali onde ele fazia a curva, no modo peculiar daquela curva, penso que a curva é o gesto de um rio. E assim o reconheci, como às vezes se reconhece num homem velho o trejeito infantil, mais lento apenas."

(Chico Buarque, em Leite Derramado)


Final do dia. Vinha fatigada para a casa – passara o dia batucando no computador e depois enfrentara o trânsito paulistano desses dias de tempestades. Já estava no final do percurso, faltava em torno de um quilômetro e meio (dos mais de sessenta que tenho de percorrer) para chegar em casa. Surpresa: a estrada de terra, no local onde ela corta o rio, estava intransitável pelo muito que o rio se avolumara com a chuva. Descalço os meus pés, subo a saia; seguro-a acima da metade das minhas coxas. Vou conferir a profundidade e a força que as águas adquiriram. Serenidade, num instante minhas aflições foram levadas pelo fluxo das águas entre as minhas pernas. Essa água não é inodora, nem é incolor. Nessa época do ano cheira a lírio e tem a cor da terra que as chuvas carregam.

Antes disso: na Marginal do Tietê, o rio ameaçava invadir as pistas. A ideia do contato da minha pele com aquelas águas fétidas me repugnou. Quando foi que o rio tornou-se sinônimo de sujeira, doenças, desesperança e estagnação? Não tem sentido a pergunta – quando – foi um lento e longo processo de aviltamento do rio que resultou nessa mudança do seu significado. Curioso: essa noção de processo surgiu do rio como metáfora – não é a mesma água, anunciou o filósofo grego.

O rio Tietê, que corre ao contrário da direção ao mar, era o símbolo do ímpeto desbravador paulista. No curso do Tietê e de seus afluentes (o rio Sorocaba, por exemplo) proliferaram feiras, nasceram povoados e foram fundadas as primeiras cidades paulistas. Esse foi o início da degradação, não só do Tietê, mas de todos os nossos rios e córregos urbanos: desmatamento das margens e despejo de dejetos nas águas. Chegamos ao cúmulo de, em vez de tratarmos nossos esgotos, canalizarmos os cursos d'água, numa tentativa de esconder a imundície que produzimos. E assim, perdemos a intimidade com os rios.

Quando o Mário de Andrade escreveu "A Meditação Sobre o Rio Tietê", parece que o rio já estava estragado: "Destino, predestinações... meu destino. Estas águas/ do meu Tietê são abjetas e barrentas,/ dão febre, dão morte decerto, e dão garças e antíteses." Nessa época ainda era possível a prática de esportes aquáticos no rio, entretanto, cegos pelo progresso, continuamos a maltratar o rio.

Na construção das marginais, retiramos-lhe as curvas, golpe derradeiro na identidade do rio. Na obra de aprofundamento da calha do Tietê (aquela que acabaria de uma vez por todas com as enchentes na cidade), o paisagismo e plantio de espécies nativas trouxe alguma graça ao rio; ficou como um rosto que, mutilado e desfigurado, recebeu uma cirurgia plástica que não reconstituiu os movimentos musculares faciais. Em 2009, mais concreto, mais asfalto e muito menos árvores – além de quase nenhuma remoção do lixo que assoreia o rio (e, apesar da falta da manutenção básica necessária, responsabilidade do governo do estado, as autoridades insistem em dizer que as enchentes são decorrência apenas do excesso de chuvas).

Desse modo, o rio tornou-se a desgraça e a dor da cidade. É como uma ferida pútrida que cresce com a demagogia das autoridades e expõe a nossa própria ignorância e brutalidade. Imagine qual seria a resposta de qualquer paulistano à pergunta: o que você acha de morar perto de um rio?

Estava dentro do rio que contorna a minha casa. A água fresca havia transbordado na estrada e estava na altura da metade das minhas coxas. Preciso contar como pode ser bom ter um rio por perto. Tristeza? Banho de rio. Desânimo, tensão, desamor e quebranto: banho de rio. Também, alegria e calor: banho de rio. Se acreditarem – acreditem! – que um banho de rio alivia as piores dores da alma, sonharão com um Tietê limpo. E, quem sabe, passarão a exigir os cuidados que o rio precisa.