07 dezembro, 2010

Ad infinitum

Tenho plena conciência de que soa pernóstico o uso do latim no título (ou no corpo) de um texto. Ocorre que escrevi - em tom queixoso, reconheço - para uns poucos amigos sobre a má qualidade dos textos que tenho lido. Foi justamente este o título do emio, ad infinitum; para esses amigos o latim soa tão natural quanto a palavra 'pernóstico'.

É claro que, habituada à leitura de boa literatura, sofro com o descuido no estilo. Mas não foi esse o teor da queixa: o problema é que já não se escreve mais. As pessoas copiam e colam fragmentos de textos alheios e despudoradamente apresentam a composição final - grotesca como a criação do doutor Frankenstein - como fruto do seu trabalho (e veio daí o título em latim: faz-se esse copia e cola a partir de textos nos quais já foi usado esse artifício, os quais, por sua vez, foram escritos da mesma forma: ad infinitum). Outra artimanha da pseudoacademia é o uso indiscriminado de citações e referências bibliográficas - para arrotar erudição ou esconder a própria falta de conteúdo, cita-se este ou aquele grande autor, mesmo que a citação não seja apropriada para o contexto.


Não foi para tornar a queixa pública que escrevo aqui e acolá, mas para compartilhar uma boa dica de leitura. Em resposta ao Ad infinitum, um amigo (obrigada, Maurice) sugeriu a leitura do Prólogo do Dom Quixote. A leitura é deliciosa e o texto tem aquela ironia fina que raros autores são capazes. Não obstante ter me maravilhado com o estilo, fiquei chocada com a atualidade do texto do Cervantes. Quatrocentos anos! E essência de sua crítica cabe perfeitamente nos dias atuais.


Em livre tradução, um trechinho: "apenas tens de te aproveitar da imitação no que estiveres escrevendo, que, quanto mais perfeita ela for, tanto melhor será o que escreves."

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