19 junho, 2010

Saramago

Foi como se um amigo houvesse morrido. Não, não é exagero dizer que senti a morte do meu autor favorito como se sente a morte de um amigo, afinal são poucas as amizades capazes de influenciar meu modo de pensar da maneira que a obra dele o fez. Seu olhar sensível e realista sobre humanidade me ajudou a construir a minha própria visão de mundo.
Não vamos nos encontrar no juízo final – não há paraíso para os justos, nem inferno para os ateus. Contudo, enquanto estiver viva, carregarei comigo um pouco do seu espírito. De cada obra sua que li, guardo uma ideia ou uma imagem. A conversa entre Jesus, deus e o diabo naquela canoa sem remos. A comoção no banho das mulheres cegas após saírem do sanatório. O azul brilhante do fio na boca do Cérbero e a terra à deriva. O papel violeta do fichário da Morte, para cada vivente, um verbete. O líquido a escorrer na coxa da mulher – é dele, ela pensa. Etc.
Cada vez que o mundo se torna incompreensível e feio demais, posso recorrer a esse caleidoscópio de imagens e ideias belamente descritas. Se toda a literatura que ele escreveu não torna o mundo melhor ou a vida mais fácil, através dela podemos desejar a mudança. E o desejo é o princípio do ato.

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