30 maio, 2010

Deixa a velha fumar?

Visita domiciliar: a agente comunitária de saúde, meu auxiliar e eu fomos atender uma octogenária com queixa de ardor na boca. Chegamos à casa. A agente chama pelo nome dos moradores e da paciente. Após alguma demora, o filho da paciente abre a porta e nos convida a entrar. A velhinha está sentada na cama. Perdera a capacidade de movimentar seu lado direito, sequela de um “derrame”. Tem nas pernas um cinzeiro com duas bitucas e tenta apagar, notadamente constrangida, o cigarro que acabara de acender. Na curta conversa que tivemos, ela disse que não tem nada a fazer naquela cama, que gosta de fumar seus cinco cigarrinhos diários e assistir aos programas da televisão. Lamentou-se: todo mundo implica com o cigarro.

A intolerância aos maus hábitos tem crescido. Cresce mais em certos meios sociais que em outros. Por exemplo, a classe média, frequentadora de academias de ginástica, reage com repugnância ao cigarro, enquanto entre os pobres fumar é um hábito que persiste, apesar de toda a informação disponível e amplamente conhecida sobre os danos à saúde causados pelo tabagismo. Claro que nem tudo é pão-pão queijo-queijo: há a disciplina imposta pelas religiões, que afasta do vício uma considerável parcela da população que vive na pobreza.

A disciplina do corpo motivada pela culpa e negação dos prazeres carnais é tão antiga quanto as religiões judaico-cristãs. Entretanto, de onde (ou de quando) vem esse culto à virtude corpórea, reflexo da preocupação meio neurótica com a saúde? Se o corpo humano é comparável a uma máquina (e isso remete aos autômatos do Descartes – ainda há muita gente que adora essa analogia), há de se lubrificar suas engrenagens de quando em quando para garantir seu bom funcionamento. Perfundir um veneninho gostoso nos fluidos corpóreos – nem pensar! Até porque máquina que se preze não tem necessidade de prazeres...

Pode ser simplista pensar que há uma recusa ao prazer; pode ser que tenha havido uma mudança no entendimento do que é prazeroso. Deve haver prazer em ver no espelho um corpo bem torneado, deve ser uma delícia exibir um carro recendendo a novo e usar óculos de sol de uma marca reconhecidamente cara. Comprar um apartamento num condomínio com área de lazer: orgasmos múltiplos! Não obstante essa fachada de felicidade e saúde exuberante, esse estilo de vida, baseado no consumo e esvaziado de significado, tem implicações sérias na saúde mental – resulta em crises depressivas e consumo generalizado de medicamentos psicotrópicos. Para cada estilo de vida há uma doença à espreita... Longe de mim, afirmar que a depressão é uma doença exclusiva dos endinheirados, até porque partilhamos todos dos mesmos valores. Condensados no consumismo, esses valores são de suma importância para a manutenção do falso sucesso desse modelo econômico vigente.

Pensando nessas coisas, lembrei-me de dizer à paciente que a implicância com seu hábito de fumar era resultado da preocupação e do carinho que as pessoas lhe tinham. Disse também que era por afeto que, apesar de saberem que o cigarro faz mal, continuavam a lhe comprar os maços, do mesmo modo que a minha avó me mimava com doces antes do almoço, suprimindo o meu apetite para o arroz com feijão. Tirei suas dentaduras, examinei sua boca despida, prescrevi o medicamento pertinente e despedi-me da anciã contentinha com seus cigarros.

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