01 abril, 2010

Cena da periferia de São Paulo*

Há dias que sente uma dorzinha de dente quando toma o café quente da manhã. Passara por isso, já. Sabe que a coisa só vai piorar. Sabe que qualquer dia desses uma dor excruciante o tomará de assalto. Dia após dia, termina o café, toma o seu primeiro ônibus do percurso de ida ao trabalho e esquece-se do dente. Cruza a cidade: mora em Guaianases, parece que trabalha como porteiro num prédio nas Perdizes.
No meio da madrugada, muito antes do horário que costuma tocar o despertador, é acordado pela dor. Toma os analgésicos que tem em casa, vira de lado e tenta dormir. Mas o dente dói, dói, dói. Acaba adormecendo. Quando amanhece, já que perdera a hora, o ônibus e o dia de trabalho, vai até o posto de saúde, distante em uma quadra da sua casa, para uma consulta odontológica. Faz a ficha e espera o atendimento.
Quando termina de contar o seu caso à dentista, dela ouve: Olha seu Gilberto, o senhor precisa tratar o canal do dente; hoje, para que seu dente pare de doer, eu teria que tirar o nervo do dente e fazer um curativo. Mas estamos sem anestésico no posto. Na semana passada não tinha luvas... Estamos os dois aqui, o senhor precisa do atendimento e eu estou pronta para trabalhar, mas no posto não tem anestésico. O senhor toma esse remédio, pode ser que faça efeito.

* Qualquer semelhança não é mera coincidência: há tempos, desde o início da gestão do prefeito homônimo ao personagem da crônica, faltam os materiais fundamentais para o funcionamento de Unidades Básicas de Saúde do município de São Paulo. Não disponho de dados formais sobre o assunto, mas tenho ouvido de colegas que trabalham na Zona Leste que até há raros períodos de melhora da situação, intercalando-se aos de escassez absoluta: a falta de insumos é crônica, como é crônica a necessidade aguda dessa população de serviços de saúde resolutivos.

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