22 março, 2010

Afinar o coro dos descontentes*

Foi isso que pensei quando ouvi pelo rádio a reportagem sobre a manifestação dos professores da rede estadual na última sexta-feira. Enquanto a repórter falava sobre a manifestação, eu ouvia ao fundo os professores num coro animado cantando palavras de ordem. A repórter estava na Igreja da Consolação e relatava que toda a extensão dessa rua estava ocupada pelos manifestantes. Muita gente.
É uma tradição nas notícias sobre as manifestações populares a polícia subestimar o número de participantes. O curioso nas duas últimas manifestações dos nossos professores é que a diferença entre os números da polícia e os da Apeoesp é múltiplo de cinco! Eram oito mil professores ou eram quarenta mil? Sem imagens aéreas da passeata não podemos saber, temos de escolher entre a versão da polícia e a dos grevistas. Assim é possível tentar convencer a sociedade que o movimento é minoritário, que não passa de “trólóló”. Chega a ser engraçado ouvir o governador dizer que os grevistas estão querendo atrapalhar a sua candidatura a presidente – o governador diz “greve política” numa tentativa de associar o movimento à má politicagem da qual estamos fartos.
É muito difícil mobilizar as pessoas, fazer com que elas saiam da sua rotina. O que fica evidente quando a Apeoesp consegue colocar tanta gente na rua é que o descontentamento é generalizado. Os professores poderiam ter ficado em casa, reclamando sozinhos. Em vez disso, passeiam aos milhares cantando em uníssono o descontentamento da categoria com as décadas de tucanagem contra os serviços públicos do Estado mais rico da Federação. Confesso que me comove essa demonstração de civismo. Torço para que outras categorias profissionais se contagiem pelo entusiasmo do professorado paulista. Sonho que toda a sociedade vai se juntar para afinar o coro dos descontentes.

* Nos início dos anos 70 o poeta Torquato Neto escreveu ‘vai bicho, desafinar o coro dos contentes’. O Itamar Assunção, nos anos 90, sugeriu: ‘poeta, talvez seja melhor afinar o coro dos descontentes’.

Um comentário:

  1. Faço duas observações:

    1 - A disparidade de números é prova cabal de que os "brigadianos" ainda usam antolhos (acabam não vendo os lados e não contando os manifestantes que estão fora de seu restrito campo de visão).

    2 - O "José Nosferatu" mostra não ser apenas amigo de George Bush, mas também discípulo, ao adotar as mesmas táticas de restrições midiáticas em sua Guerra contra a população de São Paulo.

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