02 fevereiro, 2010

Tristeza? Banho de rio

"...era um rio quase estagnado de tão lamacento, quando se deslocava dava a impressão de arrastar consigo as margens imundas. Era um rio podre, contudo eu ainda via alguma graça ali onde ele fazia a curva, no modo peculiar daquela curva, penso que a curva é o gesto de um rio. E assim o reconheci, como às vezes se reconhece num homem velho o trejeito infantil, mais lento apenas."

(Chico Buarque, em Leite Derramado)


Final do dia. Vinha fatigada para a casa – passara o dia batucando no computador e depois enfrentara o trânsito paulistano desses dias de tempestades. Já estava no final do percurso, faltava em torno de um quilômetro e meio (dos mais de sessenta que tenho de percorrer) para chegar em casa. Surpresa: a estrada de terra, no local onde ela corta o rio, estava intransitável pelo muito que o rio se avolumara com a chuva. Descalço os meus pés, subo a saia; seguro-a acima da metade das minhas coxas. Vou conferir a profundidade e a força que as águas adquiriram. Serenidade, num instante minhas aflições foram levadas pelo fluxo das águas entre as minhas pernas. Essa água não é inodora, nem é incolor. Nessa época do ano cheira a lírio e tem a cor da terra que as chuvas carregam.

Antes disso: na Marginal do Tietê, o rio ameaçava invadir as pistas. A ideia do contato da minha pele com aquelas águas fétidas me repugnou. Quando foi que o rio tornou-se sinônimo de sujeira, doenças, desesperança e estagnação? Não tem sentido a pergunta – quando – foi um lento e longo processo de aviltamento do rio que resultou nessa mudança do seu significado. Curioso: essa noção de processo surgiu do rio como metáfora – não é a mesma água, anunciou o filósofo grego.

O rio Tietê, que corre ao contrário da direção ao mar, era o símbolo do ímpeto desbravador paulista. No curso do Tietê e de seus afluentes (o rio Sorocaba, por exemplo) proliferaram feiras, nasceram povoados e foram fundadas as primeiras cidades paulistas. Esse foi o início da degradação, não só do Tietê, mas de todos os nossos rios e córregos urbanos: desmatamento das margens e despejo de dejetos nas águas. Chegamos ao cúmulo de, em vez de tratarmos nossos esgotos, canalizarmos os cursos d'água, numa tentativa de esconder a imundície que produzimos. E assim, perdemos a intimidade com os rios.

Quando o Mário de Andrade escreveu "A Meditação Sobre o Rio Tietê", parece que o rio já estava estragado: "Destino, predestinações... meu destino. Estas águas/ do meu Tietê são abjetas e barrentas,/ dão febre, dão morte decerto, e dão garças e antíteses." Nessa época ainda era possível a prática de esportes aquáticos no rio, entretanto, cegos pelo progresso, continuamos a maltratar o rio.

Na construção das marginais, retiramos-lhe as curvas, golpe derradeiro na identidade do rio. Na obra de aprofundamento da calha do Tietê (aquela que acabaria de uma vez por todas com as enchentes na cidade), o paisagismo e plantio de espécies nativas trouxe alguma graça ao rio; ficou como um rosto que, mutilado e desfigurado, recebeu uma cirurgia plástica que não reconstituiu os movimentos musculares faciais. Em 2009, mais concreto, mais asfalto e muito menos árvores – além de quase nenhuma remoção do lixo que assoreia o rio (e, apesar da falta da manutenção básica necessária, responsabilidade do governo do estado, as autoridades insistem em dizer que as enchentes são decorrência apenas do excesso de chuvas).

Desse modo, o rio tornou-se a desgraça e a dor da cidade. É como uma ferida pútrida que cresce com a demagogia das autoridades e expõe a nossa própria ignorância e brutalidade. Imagine qual seria a resposta de qualquer paulistano à pergunta: o que você acha de morar perto de um rio?

Estava dentro do rio que contorna a minha casa. A água fresca havia transbordado na estrada e estava na altura da metade das minhas coxas. Preciso contar como pode ser bom ter um rio por perto. Tristeza? Banho de rio. Desânimo, tensão, desamor e quebranto: banho de rio. Também, alegria e calor: banho de rio. Se acreditarem – acreditem! – que um banho de rio alivia as piores dores da alma, sonharão com um Tietê limpo. E, quem sabe, passarão a exigir os cuidados que o rio precisa.

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