18 fevereiro, 2010

Conversa de Boteco

Todo povoado que se preze tem ao menos um boteco e uma igreja. Quando é distante da cidade, o boteco é também a venda, o que facilita aos casados saírem de casa e se reunirem em torno da cachaça: Mulher, vou buscar uma linguiça na venda.
Há uma razão para encetar o relato com esse preâmbulo – poderia começar logo na narrativa. Ocorre que certas histórias só são possíveis em determinadas condições e são menos importantes os dados demográficos que os costumes e a mentalidade do povo. Poderia perguntar ao IBGE quantos são os habitantes da Serra do Itapety, se são velhos ou moços, se trabalham com carteira assinada ou se possuem bens imóveis.
Prefiro, no entanto, para dar uma noção de quantos somos, contar que num raio de cinco quilômetros do meu sítio há três vendas e duas igrejas; temos também uma escola com umas cem crianças matriculadas. É uma pena não haver um posto de saúde, gostaria muito que essa faculdade da ubiquidade dos botecos e das igrejas fosse estendida aos postos de saúde. Para isso, reivindicar uma UBS às autoridades de Mogi das Cruzes, lançamos mão dos números do IBGE, cada coisa tem a sua hora.
Tergiverso. Isso, da necessidade de um posto de saúde nesses confins, não guarda relação com a história. Contudo, a tergiversação em si é parte da história: é o nosso modo de falar. Contentamento: mudei-me para cá há menos de seis meses e já me identifico como um dos da terra.
Sem mais rodeios.
Fim da tarde. Encilhei meu cavalo e fui à venda comprar farinha. Ordenei uma branquinha para me refrescar e tomei assento para um dedo de prosa. O assunto era a obra na fazenda da japonesa – ela havia vendido as terras para uma fábrica de papel e era aquele barulho dos infernos, mais de vintes tratores na função de terraplenagem. O estrago foi muito grande. O fio d’água que alimentava o lago da dona Carmem secou e o lago virou uma poça de lama; a estrada para o Caracol estava intransitável – nem a cavalo – e as crianças de lá estavam perdendo aulas; a paisagem enfeou muito, no lugar do extenso roçado de hortaliças em curvas de nível havia agora aquele campo de terra nua e plana.
E apareceu uma onça nas cercanias. Diz-se que ela morava naquela matinha que foi derrubada pela fábrica de papel. Como ficou sem casa e sem ter onde caçar, passou a atacar os galinheiros e a dar sustos nas gentes. O Gomes mesmo, numa noite dessas saiu de moto do bar do Simei – garante que estava sóbrio – e não teve como evitar a queda na curva da gruta, quando a onça pulou no meio da estrada.
Depois dessa, tive de contar o comigo sucedido:
Estava a sós em casa e no meio da noite ouvi o ladrar inquieto dos meus cães. Pensei que fosse gente, ladrão. Sem acender as luzes, sem fazer barulho, peguei um facão e saí para o terreiro. No escuro tentava enxergar o que estava se mexendo entre as ameixeiras, parecia gente acostumada com matos: eu sentia que algo se movia e sabia que era grande como um homem, apesar de não ouvir o ruído das passadas. Minhas pupilas estavam dilatadas ao máximo e eu mal respirava para não denunciar a minha presença no terreiro. E no meu peito, o coração: buco-buco, buco-buco.
De repente, pulou a onça na minha frente. Tinha aquele bodum próprio das onças e aqueles olhos que hipnotizam a presa. No caso, a caça era eu; melhor, a caça era ela ou eu. Ficamos nos medindo num tempo sem fim, não nos movíamos, nem a piscar. Eu segurava aquele facão inútil e imaginava como me defenderia da bichana, até podia conceber a lâmina sangrando-lhe o pescoço, era questão de conseguir enfiar a faca nela, de ser mais veloz que a onça. Não atacamos.
Começou um movimento de nuvens no céu e a lua cheia iluminou o mundo. Minha sombra cresceu sobre a onça e eu já não sabia o que era a onça e o que era a minha sombra. Penso que ela se assustou muito com o meu vulto, pois que no mato sumiu tão ligeira quanto dele surgiu.
Terminei a história, virei a cachaça e montei o meu cavalo. Por muitas semanas qualquer assunto no bar do Simei rematará novas histórias da onça. Quero ver quem vai ter história melhor que a minha.

Um comentário:

  1. Gostei do "Encilhei meu cavalo e fui à venda comprar farinha"! Quanto à senhora dona onça, tá igual um tucunaré de uns 200 kg que eu pesquei na semana passada. He he he!

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