15 dezembro, 2009

Saturno, Jesus Cristo e Papai Noel

Nessa época de final de ano costumam aparecer, aqui e acolá, críticas esparsas ao consumismo desmedido em que se transformou o natal. O verdadeiro espírito natalino seria uma invocação dos preceitos cristãos de amor universal e solidariedade, através da celebração do nascimento de Jesus. Sim, Jesus Cristo está sendo substituído por Papai Noel. A primeira aparição do Santa Claus – leio em Espelhos, livro do Eduardo Galeano – foi em 1863 na revista Harper's. Criado por um desenhista, era um gnomo rechonchudo em trajes verdes ou azuis. Ainda segundo o Galeano, quando a Coca Cola contratou o Papai Noel, em 1930, ele ganhou a cara e as cores que hoje conhecemos. Papai Noel é tão artificial quanto o refrigerante que o divulgou mundo afora. Realmente, onde fica Jesus nessa história?
Ocorre que o mundo nem sempre foi cristão. O que havia antes de Cristo? Na antiguidade europeia havia o politeísmo pagão. Não é novidade que a igreja católica, a primeira igreja cristã, incorporou na sua liturgia algumas datas e referências pagãs. Proibiu os rituais antigos e depois de alguns séculos de brutalidade, pimba: Natal em vez de Saturnálias, Semana Santa em vez de Festa Hilária. (Não perca a deliciosa leitura do livro do Galeano, ele fala das Saturnálias no capítulo 'O mundo ao contrário caçoava do mundo' e da festa da hilariedade em 'É proibido rir'.). Quando o natal tornou-se cultura, será que os adeptos do politeísmo antigo, na hipótese de algum ter escapado à opressão católica, perguntavam-se onde fica Saturno nessa história?
Embora a igreja católica não detenha o mesmo poder dantes, o cristianismo ainda é hegemônico no ocidente. Já o consumismo do Papai Noel transcende as religiões – cristãos, muçulmanos, judeus, budistas, ateus, macumbeiros – todos podemos consumir. Na dependência das nossas condições econômicas podemos pagar à vista ou em n parcelas, está ao alcance de qualquer um a possibilidade de aproveitar as ofertas noelinas e trocar de celular, carro, roupas, sapatos, brinquedos, televisores etcetera. Papai Noel pode ser mais universal que Jesus Cristo.
É interessante que a substituição do significado cristão do natal para a compulsão de consumo está sendo muito rápida. O consumismo tem uma ferramenta, a publicidade, que cria a necessidade psicológica de se ter certas coisas. Não necessita se valer da força, da proibição e da fogueira, como fizera o cristianismo católico; pelo contrário, no mundo do consumismo prega-se as liberdades individuais e o acesso a bens de consumo como direitos humanos.
O significado cristão do natal já está relegado ao segundo plano e pode acabar completamente esquecido num futuro próximo, da mesma forma que os castos rituais cristãos tomaram o lugar das formidáveis festas da antiguidade. Naquela época, o natal cristão em detrimento das Saturnálias certamente soava artificial, como hoje nos parece artificial o consumismo noelino em detrimento do espírito cristão. Será que a humanidade chegará ao ponto de acreditar que o Papai Noel realmente existiu?

4 comentários:

  1. Não devemos nos curvar às decisões tomadas em Copenhague. Sendo bem ou mal sucedida a reunião, nada vai mudar, se o nosso modo de vida continuar o mesmo. O que adianta doar 10, 20 ou 100 bilhões, se continuamos com o nosso consumismo insaciável? O consumismo, o marketing, a publicidade, o merchandasing...somos escravos do nosso tempo.

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  2. Creio que a "teologia da prosperidade" (IURD & cia) já fez a substituição de significado. Só se mantiveram os nomes no lugar por questões de tradição e manutenção do "capital imaterial" da "marca".

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  3. Creio que a "teologia da prosperidade" (IURD & cia) já fez a substituição de significado. Os nomes só foram mantidos no lugar por conta de tradição e manutenção do "capital imaterial" da "marca".

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