18 outubro, 2009

Os Senhores do Tempo

Luiz Menna-Barreto

Sim, adiantemos nossos relógios uma hora e façamos o sol nascer e morrer mais tarde, incrível parece ser o poder que temos de manipular o tempo através dos ponteiros. Agora, esse jogo das horas serve para o que, afinal? Há alguns anos nos diziam que era para economizar energia, hoje a história é diferente, serve para aliviar o pico de demanda de energia do início da noite. Enfim, as justificativas variam, mas o horário de verão resiste e persiste.
Gosto de pensar num mundo sem essa manipulação do tempo. Claro que há quem goste, sobretudo aqueles que não frequentam auroras e que preferem o final do trabalho ainda ensolarado. Para esses, sugiro atrasar todos seus horários para uma hora mais tarde e com isso reorganizar sua vida de acordo, sem precisar bulir nos relógios, os próprios e os alheios. Outros tantos reclamam de ter que levantar na escuridão e enfrentar o trânsito ainda na penumbra, nas horas ditas mortas. Gostando ou não, acabamos nos acostumando, ou quase, com o novo jogo do relógio.
Alguns, poucos talvez, nunca se adaptam, contam de sonos mal dormidos e vigílias mal acordadas, desconforto diluído pelo corpo e alma. Esse desconforto, mesmo que passageiro, encontra suas raízes no convívio dos homens com os ciclos da natureza, divididos agora que estamos entre os tempos do sol e da lua e os tempos dos relógios. O tempo das máquinas adquiriu, por assim dizer, vida própria e o tempo dos homens é cada vez mais ditado por interesses alheios ao seu viver e aos seus desejos – manipular o relógio nos outubros e novamente nos fevereiros não passa de uma ilusão de poder, a novidade se esgota, a rotina ressurge impiedosa.

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