28 setembro, 2009

Plács uáitenin e Tom Zé

Não falha, nunca. Diariamente, nos dias em que vejo TV, o conforto do meu lar é invadido pelas propagandas ubíquas de cremes dentais e quetais. Na pior delas, de um colutório que promete clarear os dentes, a protagonista enfia na cara do penitente sonolento um microfone e, autoritária e com o auxilio de luzes ofuscantes, inquire se ele notou como tem dentes amarelados e por que raios ainda não usa o Plács Uaitenín, oh imbecile? O pobre, que representa os potenciais consumidores do produto, responde às perguntas com um hã, dãh...
Não capisco! Como um produto pode ser um sucesso comercial destratando seus consumidores nas suas peças publicitárias? Não sei. É patente que, com televisores de plasma, celulares multifuncionais, planos de saúde ultra-plus, carros potentes, condomínios fechados e corpos esculpidos em academias, ter dentes brancos e hálito puro tornou-se um anseio contemporâneo. Aliás, repare nos dentes do bem sucedido motorista na propaganda do carro, ou da linda moça que anuncia um xampu incrível. Viu? Branquíssimos, alinhados, nenhum faltante. Apenas sorrisos assim têm vez. E num outro reclame, dentifrício da mesma marca do enxaguante bucal, a protagonista zen pergunta e responde: ‘23 problemas bucais? Não numa boca saudável!’. A lógica embutida na pergunta é equivalente a ‘Abundantes cabelos? Não numa cabeça careca!’
Socorro! Como escapar dos apelos cavilosos da felicidade suprema através da aparência e do consumo? Ou seguiremos sem sorrir – porque nossos dentes não são tão brancos, nossos cabelos não brilham tanto, nem nossos corpos são sarados – e hipnotizados pelo proselitismo do ideário consumista exibido no horário nobre? Consumo logo existo? Não numa mente crítica!
Possuída por essas conjecturas e cansada da imbecilidade dessa lengalenga doutrinária, na qual o consumo supérfluo é a salvação da lavoura do impávido colosso (e do mundo todo!), busco alívio na fina ironia do Tom Zé, adorável maldito. 114% de sincronicidade. O som, programado para tocar aleatoriamente as músicas armazenadas, alardeia, numa canção de 1968 – Catecismo, Creme Dental e Eu:
Catecismo de fuzil e creme dental em toda frente
Pois um anjo do cinema já revelou que o futuro
Da família brasileira será um hálito puro
Será um hálito puro

2 comentários:

  1. Várias vezes quando vi estes comerciais pensei "preciso ter este papo com a Claudinha". Que transmimento de pensassão, hein?
    Para nós réles mortais munidos com dentaduras comuns ficamos com a autoestima em baixa ao ver este bombardeamento dentifrício. Quando listam então os 23 problemas bucais a tal autoestima vai para o dedão do pé. E uma baixa autoestima no pé é um problema difícil de resolver...
    Que seria de nós se não tivesse a Claudinha e o Tom Zé para nos redimir...

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  2. Eu, redimir? Junto com o Tom Zé?
    Obrigada!!!

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