21 julho, 2009

Saia do armário: um basta ao assédio religioso

Não costumo esconder o penso e, mesmo quando sei que as conseqüências de expressar o meu pensar serão difíceis de enfrentar, não me sinto intimidada. No entanto, há um assunto do qual nem sempre posso falar livremente: sou atéia. Há um estigma social contra ateus, como se o fato de alguém não se agarrar a misticismos e sobrenaturalidades fosse suficiente para demonstrar uma falha grave de caráter, uma ruindade intrínseca.
É incrível que mesmo as pessoas que se esforçam para respeitar o livre pensar e as diversidades sócio-culturais demonstrem preconceito quando se trata desse assunto. Por exemplo, recentemente ouvi de uma pessoa dessas um ‘então você é à toa’. Claro que foi dito em tom jocoso, mas acredito que a linguagem revela as intimidades do nosso pensamento. Quem realmente respeita a minha não-crença jamais falará assim. Pois, pois. É desnecessário falar do comportamento social de muito religiosos pios, freqüentadores assíduos de missas e cultos, tenho minhas dúvidas se essa abordagem seria útil para derrubar os preconceitos contra os ateus.
No sentido de combater o assédio religioso surgiu uma campanha, a OUT Campaign, liderada pelo Richard Dawkins, célebre ateu. Trata-se de incentivar os ateus a saírem do armário, caso se sintam preparados para os efeitos do gesto, e possibilitar que se reconheçam e que sejam reconhecidos pela sociedade como pessoas comuns. Veja mais no link:
http://outcampaign.org/PortugueseBrazil

2 comentários:

  1. Saudações agnósticas!
    Como não sou tão convicta no meu posicionamento anti-misticismo, estou mais para agnóstica que atéia... Sou ex-espírita, deixei o espiritismo por não acreditar mais na lenga-lenga dos espíritas, mas contraditoriamente morro de medinhos num filme de fantasma. É mole? E não tenho coragem em mexer em algum despacho de encruzilhada...
    Tirando a importância de se conquistar terreno e sair do ostracismo no caso dos agnósticos e ateus, é muito bom discutir religião. Sem ranço proselitista. Só para matar curiosidade, saber como o seu amigo sente e entende destes assuntos.
    Então queria me afirmar agnóstica sem sofrer preconceitos e ainda poder perguntar para o colega do lado numa rodinha de boteco: qual é a sua "praia"? Mesmo que fosse evangélico gostaria muito de saber como ele se tornou um, quais as suas indagações interiores, se há contradições entre os dogmas e suas aspirações pessoais. E é claro, sem correr o risco de ficar a mercê deste colega, de uma tentativa dele para me converter!
    Muito oportuno este seu texto Claudinha!Vamos sair pelo mundo nos assumindo!!!!
    *********
    Durante a FLIP assisti a palestra do Richard Dawkins. Os argumentos e idéias céticas e atéias dele já são um senso comum entre os cientistas. O que é novidade é seu posicionamento combativo e auto-afirmativo como ateu. É darwinista de carteirinha, viu? Mas felizmente não cai na arapuca do darwinismo social. Indabem.
    Os livros devem ser um bom arsenal para discutir com os que acreditam ainda no vovô Adão e na vovó Eva...

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  2. Oi, Clau,
    Sei bem como é chato isso pelo qual você passou (ou está passando). As religiões monoteístas todas - e o catolicismo muito mais do que diz - são intolerantes, pois é parte de seu credo o que os estudiosos da religião chamam de "pretensão à verdade". No cristianismo, se você não crê em Deus, verdade única, você não faz parte do povo "eleito". Mais do que isso, o que o nosso povão (que inclui a elitinha... rsrs) bem entendeu é que religião é também enquadramento e ideologia. Quer dizer, quando você nega a religião, pe como se negasse junto todo a conjunto de valores morais que vem no pacote. Se você é independente, então não é confiável, e eu não sei mais se você é uma pessoa boa, de acordo com os valores conhecidos por todos. Antes de descobrir quem você é, parto do princípio que você não tem moral.
    Passei bem apurado na Itália com essa história. Afinal, ali estava no meio dos ditos pensadores da Santa Sé. Uma hora preciso te contar em detalhes o caso da Clementine, a única negra da Scuola Normale - que obviamente só chegou ali pelas mão da Igreja, mas acabou refugiada lá em casa... rsrs (de caridade católica nós estamos escolados, antevemos onde a ajuda deles vai terminar!)
    Enfim. A batalha e out-campanha é válida. Mas acho também perigoso cair no movimento oposto, ou outra versão do mesmo. Nós de esquerda sabemos o quanto o marxismo de nosso pai judeu contém de religioso também em seu discurso. Talvez a melhor política nesse campo seja não o não discutir - burrice - mas assumir o não sei "alla" Raul Seixas e compreender os humanos nós que precisamos de imaginários amores e valores visíveis para nos sentirmos felizes...
    Beijão,
    Lu

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