06 junho, 2009

Nem fode, nem sai de cima: relações incestuosas dos docentes da universidade pública com os serviços privados

Mariana passou a boa parte da vida construindo um currículo primoroso. Desde a graduação se envolveu em atividades de pesquisa na universidade pública em que estudava, tinha bolsa de iniciação e já nessa época publicou um artigo numa revista reconhecida. Depois trabalhou e estudou muito no mestrado e doutorado, assumiu as aulas da graduação de seu orientador, fez boa parte do trabalho burocrático do grupo de pesquisa ao qual era vinculada. Embora reconhecesse que era irregular que desempenhasse essas funções, nem pensava em reclamar; acreditava que essas atividades faziam parte da vida acadêmica e que ganhava experiência. Que oportunidade!
Agora Mariana está sem emprego. Nos raros concursos das universidades públicas são tantos os inscritos, e tão parecidos com Mariana, que é praticamente um golpe de sorte conseguir a vaga. Para as particulares, onde Mariana poderia lecionar, ela é qualificada demais; é mais lucrativo contratar mestres ou mestrandos – e, logo logo, essas empresas de ensino passarão a contratar não mais que especialistas.
Aliás, a formação de especialistas seria um nicho interessante para Mariana. Porém, o docente que a orientou no doutorado, ilustre cientista, com renome internacional, professor titular da universidade em regime de trabalho de dedicação integral à docência e à pesquisa, já faz isso. Ele oferece cursos de especialização na área de Mariana e ‘complementa’ o seu salário. O curso faz parte da programação de uma fundação ligada à universidade, coisa nebulosa: falta clareza nos limites do público e do privado e na destinação do dinheiro que ali gira. Ela poderia oferecer um curso alternativo, mas quem vai preferir Mariana ao célebre professor?
O docente, alma sensível, se compadece da situação de Mariana e a conforta com palavras gentis. Não passa disso. Ele orienta novas Marianas, que além de enriquecerem o seu currículo com seus trabalhos (dissertações, teses, artigos) e, assim, possibilitarem um aporte maior ainda de recursos públicos para as atividades do grupo de pesquisa, facilitam muito o cumprimento dos compromissos do docente com a universidade pública. Ele dá conta da dedicação exclusiva à universidade e faz consultorias a empresas privadas, além de oferecer cursos pagos e serviços na fundação pública-privada. Super homem!
Aos pares que o criticam ele faz um belo discurso sobre a propriedade intelectual, os direitos autorais, a necessidade de disseminar o conhecimento científico e até sobre a liberdade de expressão. Também fala das condições salariais na universidade pública, da necessidade da busca de financiamento para as suas pesquisas. Muito conveniente.
O nobre docente ocupa todos os nichos de mercado, nem opta pelo serviço público, nem pelo privado. Não parece perceber que é um ator no desemprego das Marianas que ele forma. O mais triste nessa história é que Mariana pensa que isso deve ser assim mesmo e sonha em estar na posição de sucesso de seu professor: nada como ter o nome ligado à universidade pública para abrir as portas do mercado privado.

Um comentário:

  1. Clau,

    Excelente texto! A podridão universitária e a aristocracia acadêmica lançam sua sombra por todo este país, até mesmo na forma de ex-presidente (agente da CIA?). Excelente texto!

    Escreva mais,
    Ioda.

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