14 fevereiro, 2009

Diretor resgata idéia de adaptação de "O Capital" por Eisenstein

Antes de iniciar esta postagem eu gostaria de fazer um breve relato, morei numa república de estudantes com um integrante um tanto peculiar, aliás o considero como meu irmão, e sabe como o rapaz se chamava?, Serguei!. Uma homenagem de seus pais ao grande cineasta russo e uma grande contribuição ao repertório de piadas da república. Serguei, um grande abraço meu brother!.

E-mail enviado por Mário Costa - publicado na Deutsche Velle.

Diretor resgata idéia de adaptação de "O Capital" por Eisenstein

Alexander Kluge retoma idéia do cineasta Eisenstein de filmar "O Capital", de Karl Marx, a partir da estrutura literária de "Ulysses", de James Joyce. O resultado são três DVDs com quase dez horas de duração.

Em 1929, depois do crash da bolsa de Nova York, o cineasta russo Serguei Eisenstein encontrou-se com o escritor James Joyce em Paris. O assunto entre os dois era O Capital, de Karl Marx. A idéia de Eisenstein era filmar tanto a obra de Marx quanto Ulysses, de Joyce. Ou até mesmo transformar O Capital em imagens, inspirando-se na estrutura de Ulysses.

Quase 70 anos depois, o diretor alemão Alexander Kluge resolveu recorrer a esse "diálogo parisiense" entre o russo Eisenstein e o irlandês Joyce para criar o que chama de Nachrichten aus der ideologischen Antike (Notícias da Antigüidade ideológica), uma edição de três DVDs com nada menos que 9h30min de duração.

Os DVDs são os primeiros da série Filmedition – vertente digital recém-inaugurada da editora Suhrkamp, através da qual devem chegar ao mercado, até meados do próximo ano, outras pérolas como uma coletânea de entrevistas com o dramaturgo Thomas Bernhardt, encenações para a televisão dirigidas por Samuel Beckett e um filme de Bertolt Brecht.

Dramaturgias circulares

As quase dez horas são "uma composição fria de imagens paradas, seqüências documentais e encenadas, entrevistas e imagens gráficas – tudo mergulhado numa torrente musical que leva à abstração do pensamento", descreve o semanário Die Zeit.

O projeto original de Eisenstein, explica Kluge, era o de construir um filme sem uma narrativa linear, "filmes como bolas, como astros e planetas, que se movem com liberdade no espaço e cuja gravitação leva a dramaturgias circulares", explica Kluge.

Os DVDs não são, no entanto, nem uma adaptação para o cinema ou para a televisão (o diretor tem uma longa carreira de projetos desenvolvidos para a TV), nem uma reconstrução próxima às idéias originais de Eisenstein. Para o diário berlinense taz, trata-se, mesmo assim, "de uma obra de arte fechada em si mesma, mas ao mesmo tempo aberta por todos os lados".

De Sloterdijk e Enzensberger a Tom Tykwer

Para isso, o diretor faz uso de seus próprios comentários em off, além de incluir uma série de convidados especiais: o filósofo Peter Sloterdijk, o escritor Hans-Magnus Enzensberger, o poeta Durs Grünbein e o regente Johannes Harneit, que analisa apaixonadamente a estrutura de uma ópera de Luigi Nono cujo conteúdo é de teor comunista. O "grande ausente", neste contexto, é o dramaturgo Heiner Müller, morto em 1995, lembra o jornal taz.

Uma participação inusitada no DVD é a do diretor Tom Tykwer, com seu curta Der Mensch im Ding (A pessoa na coisa), em que o diretor "abre mais uma vez o capítulo antes fechado de Lola, corra, Lola. Enquanto uma dublê de Franka Potente corre por Berlim, Tykwer pára o movimento e movimenta a câmera num trecho obscuro de uma rua de Berlim como num videogame. Cada paralelepípedo no chão, cada chiclete jogado fora, até mesmo as placas de trânsito contam sua própria história relacionada à economia e falada em off pelo próprio Tykwer", descreve o diárioFrankfurter Rundschau.

Esta e outras aproximações iconoclastas do universo da mercadoria e, com isso, da terminologia criada por Marx, são o que a mídia destaca nos DVDs lançados pelo diretor alemão. "Para Kluge, Marx não tem nada de dogmático. O que o diretor ama no teórico é o movimento das mercadorias, a troca, as metamorfoses. Ele quer relativizar sua ingenuidade, sua magia, na qual se esconde uma nostalgia em relação à ingenuidade perdida", comenta o diário Süddeutsche Zeitung.

Resgate de Marx?

"É possível relacionar essa espécie de ressurreição das teorias de Marx na mídia com a atual crise financeira?", perguntam alguns jornais de língua alemã.

"Sua morte já tinha sido praticamente declarada e suas teorias já estavam sendo vistas como um humor passageiro da história ou um arroto da sobriedade pós-moderna: Karl Marx era, até há pouco tempo, nem mesmo suficiente para uma caricatura. E aí as bolsas caem em velocidade alucinante e, de repente, rodopiam abstratas as teorias sobre acumulação e valor de troca por nossas cabeças", lembra o diário Neue Zürcher Zeitung ao comentar o revival do teórico pelos DVDs de Alexander Kluge.

O próprio diretor alemão assinala lucidamente em entrevista ao jornalFrankfurter Allgemeine Zeitung: "Marx nasceu em 1818, cinco anos depois de Richard Wagner, num tempo em que havia escravidão e trabalho infantil. Tudo isso havia sido eliminado e a jornada de oito horas conquistada. Em 1942, Marx teria 124 anos: aí temos Auschwitz. Se eu então tivesse que escolher entre trabalho infantil, escravidão e Auschwitz, não escolheria o progresso. Há também um progresso do mal. A evolução não se dá necessariamente em direção ao esclarecimento".


Redator(a):Soraia Vilela

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