29 dezembro, 2008

Solução para o transporte coletivo de São Paulo*

Será inaugurado na cidade de São Paulo em abril do próximo ano um inusitado meio de transporte coletivo: uma girafa gigante com cestos de vime estofados em branco pendurados ao longo de seu pescoço, onde se acomodarão os passageiros com muito conforto. A idéia foi da própria girafa, muito amiga de uns cronopios que vivem na cidade e que sofrem demasiado com os congestionamentos diários. Ela própria é uma alma de cronopio em corpo de girafa e não se conformava com a injustiça de uns famas bem sucedidos terem o privilégio de voar nessas libélulas mecânicas denominadas helicópteros, sem asas no dorso, com hélices na cabeça e na cauda, e assim evitarem as ruas entupidas de carros, típico de uma cidade que gira em torno das atividades dos famas.
A girafa tem a altura de um prédio de 30 andares e o conjunto cabeça e pescoço equivale aos últimos doze andares. O problema do acesso aos assentos alinhados no pescoço da girafa foi resolvido através de uma parceria com uma grande operadora de telefonia móvel, que emprestará as suas torres ubíquas, interessada que está na expansão da sua clientela sem reduzir as tarifas abusivas que cobram. Assim, o passageiro deverá subir até o ponto que na antena corresponde ao assento desejado e a girafa aproximará o pescoço de magnífica mobilidade à antena; o passageiro dará somente um passo para adentrar ao coletivo.
O fato de não aceitar sua remuneração em dinheiro – pensando bem, o que vale o dinheiro, tão apreciado pelos famas, para um cronopio fantástico como a girafa em questão? – confere-lhe algumas prerrogativas que por insistência de uns famas da Secretaria de Transportes ela teve de estabelecer previamente, descritas a seguir:

1. Não terá horário de trabalho. 2. Transportará somente cronopios, que ao cheiro dos papéis e formulários que os famas sempre carregam tem uma severa reação alérgica; poderá transportar algum cronopio que por necessidade de sobreviver esteja ocupado com as atividades de famas, classificar, catalogar, organizar – caso do Maurício Bárbara, grande cronopio que passa boa parte de seu dia num templo dos famas, uma agência do Banco do Brasil, mas que não deixa de dançar a tregua e dançar a catala quase diariamente. 3. O itinerário será definido ao seu bel prazer, de acordo com as necessidades dos passageiros que estiver carregando no momento. Caso haja conflitos de interesses deverão prevalecer os interesses da comunidade dos cronopios (este adendo na regulação do itinerário é de autoria dos famas da Secretaria, eles imaginam que os cronopios têm uma listinha de prioridades comuns, classificadas em ordem de importância). Deste modo há um risco iminente de sem mais nem menos o trajeto mudar completamente e, em vez de ter como destino a Pinacoteca do Estado, acabar por ir para a Faculdade de Saúde Pública, onde o professor Paulo Capel, quando não tem de cumprir os deadlines estabelecidos pelos famas da academia, dança a tregua e dança a catala. 4. Através das cartas de navegação será feito um estudo das profundidades do Oceano Atlântico e do Mar Mediterrâneo, onde se verificará a possibilidade de se estabelecer um itinerário para a cidade de Pisa. O propósito é proporcionar rápidas visitas da pequena cronopio Luciana Dadico, que não pode se ausentar da cidade italiana por períodos prolongados, aos cronopios conterrâneos seus, ou, quiçá levar uns cronopios de São Paulo, a Maria Sol, por exemplo, para visitar a amiga em Pisa. 5. Será desenhado um itinerário exclusivo para o cronopio Luiz Menna-Barreto sempre que ele solicitar, de acordo com as suas necessidades.
Uma girafa ordinária das savanas africanas com seus cinco metros de altura pode atingir uma velocidade de quase 50km/h e passadas de 4,5m. Pode-se imaginar a eficiência da locomoção da girafa de 30 andares de altura. Será o fim do trânsito congestionado? Tive o privilégio de estar entre o pequeno grupo de jornalistas que fizeram um percurso teste, apesar de não ter enganado a girafa com minhas falsas credenciais. Era um dia seco em pleno inverno o vento frio e constante fustigava-nos, mas a temperatura corpórea do estupendo mamífero provinha o necessário conforto térmico; fiquei no assento mais alto, localizado logo abaixo do ângulo da mandíbula, numa área de pelos brancos que formavam um gracioso redemoinho. Durante o deslocamento tem-se a sensação de grande estabilidade e segurança, além de ser agradabilíssimo o balanço, muito diferente dos sacolejos típicos dos ônibus precários no pavimento mal conservado da cidade. A vista é suntuosa, vê-se, durante o dia, os paulistanos reduzidos ao tamanho de formigas e à noite as luzes dos carros nas marginais lembram a mítica cobra de luz, a boitatá.
A evidente vocação para o turismo desse sistema deve colocar a cidade de São Paulo entre os principais destinos de viajantes de todo o mundo, o setor hoteleiro já se agita entre reformas e ampliações do número de vagas.


*inspirado em Cortázar, “Historias de Cronopios y de Famas”

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