26 novembro, 2008

Inundação

Impossível ficar indiferente à tragédia das populações de Santa Catarina causada pelas chuvas desta semana. Não que outras tragédias não me afetem, fui ensinada a me colocar na pele dos outros, principalmente quando o outro sofre – curiosa essa moral cristã, não aprendi a sentir a felicidade do outro, somente a sofrer as suas penas. Ocorre que me abalam muito mais essas tragédias de inundações, a água me seduz e me amedronta, sob uma superfície com aparência serena e tranqüila de um rio pode haver o perigo de uma correnteza.
Meus piores pesadelos são com a água, tempestades, inundações, afogamentos, maremotos e ondas gigantes; também meus sonhos mais aprazíveis são com a água, cachoeiras, rios límpidos, marolas, transparências e reflexos da luz na superfície. Disse-me um pai de santo que sou filha de Oxum – e fui ver quem era a orixá e me identifiquei com ela – essa poderia ser uma explicação da minha relação dicotômica com a água.
Outra explicação, mais racional, está na minha história e no ambiente em que cresci: em Sorocaba – palavra do tupi-guarani que significa terra rasgada, rasgada por inúmeros córregos, riachos e rios – o quintal da minha casa dava num arroio, o Regão, que na infância de meus pais era o local melhor para se refrescar no verão, mas que a estupidez humana encheu de dejetos e acabou com os brinquedos infantis. O Regão desembocava num rio maior que, para ir e voltar da escola, muitos tínhamos que cruzar, valendo-nos de uma ponte precária construída com vigas e pranchas de madeira. Na época das chuvas o rio se fortalecia e às vezes, depois de uma borrasca, ficava tão cheio que suas águas ficavam na altura do corrimão da ponte. Um ou outro ousava desafiar a correnteza quando o nível da água estava pelas canelas de quem passava sobre a ponte, mas um dia Maria Rosa foi levada; dias depois seu corpo foi encontrado enroscado numa cerca de arame farpado, muito longe da ponte, já meio comido pelos urubus. Não conheci Maria Rosa, nem sei se esse era mesmo o seu nome, mas a história dela resultou numa reverência respeitosa às forças das águas, quando atravessava a ponte a caminho da escola saudava o rio que corria manso sob a ponte, não me enganarei com a água.
No jornal de ontem (Folha de São Paulo), entre as fotografias do mar de lama que inunda Santa Catarina, a água barrenta do Itajaí-Açu está na altura do peitoril da janela de uma casinha branca, as cortinas levantadas indicam que a água está dentro da casa também; na primeira página as vacas de uma fazenda parecem querer entrar na casa sede. E o alto número anunciado de mortos e desabrigados, Marias Rosas contemporâneas, tantas ao mesmo tempo, provável conseqüência da ocupação imprudente do solo pela humanidade.

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